sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

lembrança de morrer


No more! O never more! 
...
Descansem o meu leito solitário 
Na floresta dos homens esquecida, 
sombra de uma cruz, e escrevam nela: - 
Foi poeta,  sonhou- e amou na vida. 

 Sombras do vale, noites da montanha, 
Que minh'alma cantou e amava tanto, 
Protegei o meu corpo abandonado, 
E no silêncio derramai-lhe canto!  

Mas quando preludia ave díaurora
E quando a meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!

Álvares de Azevedo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

isto... ?

Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? 
E a resposta é: 
não é só isto,
 é exatamente isto.

A Paixão Segundo G.H.   Lispector

"...Estar rodeado por pessoas erradas é a coisa mais solitária do mundo". Kim Culbertson

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Imoral

O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo. 
Lispector

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Solidão

E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.
lispector

A Nossa Vitória de cada Dia - Lispector

Clarice Lispector

Brasil 
1920 // 1977 
Escritora 

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. 

Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. 

Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Medo de ouvir... fuga

O tempo voa
e tão rapidamente e parece que foi ontem mesmo
que eu ouvia uma música,
Parecia mais uma cantiga de nanar, 
e, na mais tenra idade admirava a melodia,
Mas,  o tempo traz entendimento
O coração se sensibiliza ainda mais 
e as circunstancias trazem a mente aquela melodia
No dia que a gente cresce,
se torna gente grande...
E depois disso ?
A letra mostra seu sentido...
A fala esconde a verdade,
O coração sangra...
A melodia permanece eterna, na mente, no coração, na saudade...

quando a poesia faz folia...


Ladrões de flores

"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim 
E não dizemos nada. 
Na segunda noite, já não se escondem; 
pisam as flores, 
matam nosso cão, 
e não dizemos nada. 
Até que um dia, 
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa, 
rouba-nos a luz, e, 
conhecendo nosso medo, 
arranca-nos a voz da garganta. 

E como nunca dissemos nada, já não podemos dizer mais  nada."

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

fragmentos.... em letras (no limite da resignação)

A vida tem sons  que para a gente ouvir precisa  aprender  a começar de  novo...

Eu amava  como  amava um pescador que se encanta mais com a rede e com o mar. Eu amava como jamais poderia se soubesse como  te encontrar,..

Já  não desespero me ajeito sem jeito e sofro pensando que  eu sou uma ilha...




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MORADA

Renunciei às bagagens 
e hoje coleciono 
sonhos.


E que meu fardo seja 



sempre do bem...

Amém!

Por onde andei se não pude colher as rosas prometidas, 
os espinhos não me foram fatais.
Ah, tantos rumos e ofertas entre a riqueza e a honradez...
Segui uma estrela guia que até hoje é minha companhia.
Fiz da lua e da poesia uma secreta moradia. 
Abandonei o passado e protegi com cuidado 
todas as lembranças...


Reggina Moon

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Bruno de Paula

Atravesso o frio
que o reflexo deste espelho
me serve como solidão
.
Mergulho na secura súbita de sentimentos.
Deserto estridente das horas,
onde olhares não se movem
.
Procuro o tempo, que se esconde,
nesta paisagem falsa
que me cerca.
.
__ Bruno de Paula

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Bem que eu quis te entregar 
meu carinho
minha vida
minha história 
minha ilusão.
 E, até  mesmo esta  efêmera  glória  que  desperdiço  em escrever-lhe os versos que componho.
Nada quiseste...
 e assim os sonhos que viviam, se ontem puderam  ser começo  de história  são  hoje  dois caminhos que se distanciam... 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Teu Riso (afastado) Pablo Neruda


Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 


Pablo Neruda